Poemas de Alexandre Marino, retirados de alguns de seus livros
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Amálgama
Esta é minha sombra,
que se apossou deste lugar
e nele plantou os sonhos roubados
de um corpo que da vida
almejava apenas o dom de navegar.
Este é meu corpo, silhueta de jaulas,
acorrentado ao barco fantasma
que busca um porto perdido nos mapas,
e a cada retorno a ancestrais paisagens
descobre jamais ter estado lá.
Este é meu coração,
trêmulo caminhante de um deserto sem norte,
sedento de um vinho que o corpo é incapaz de tragar.
Esta é minha alma,
dançarina de tempestades,
que se debruça à janela para narrar horizontes
ao corpo míope
faminto de miragens.
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Amálgama
Esta é minha sombra,
que se apossou deste lugar
e nele plantou os sonhos roubados
de um corpo que da vida
almejava apenas o dom de navegar.
Este é meu corpo, silhueta de jaulas,
acorrentado ao barco fantasma
que busca um porto perdido nos mapas,
e a cada retorno a ancestrais paisagens
descobre jamais ter estado lá.
Este é meu coração,
trêmulo caminhante de um deserto sem norte,
sedento de um vinho que o corpo é incapaz de tragar.
Esta é minha alma,
dançarina de tempestades,
que se debruça à janela para narrar horizontes
ao corpo míope
faminto de miragens.
Do livro Exília (inédito)
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Paisagem doméstica
É inverno, não importa o tempo, as horas.
O inverno se esconde nos raios do sol.
O fim de tarde arranha as gargantas.
Seres invisíveis inventam a escuridão.
O inverno se esconde nos raios do sol.
O fim de tarde arranha as gargantas.
Seres invisíveis inventam a escuridão.
Fecham-se as portas, a gente desvaira.
Um cheiro de café aponta o horizonte.
Deus implora abrigo entre as cortinas.
Pássaros guardam os cantos no terraço.
Um cheiro de café aponta o horizonte.
Deus implora abrigo entre as cortinas.
Pássaros guardam os cantos no terraço.
Vozes velejam no limiar do silêncio.
Notícias antigas no rádio invisível.
Vestígios de velhas fábulas.
Notícias antigas no rádio invisível.
Vestígios de velhas fábulas.
Ninguém sabe a história inteira.
Evocam-se vazios invulneráveis.
O tempo é feito de destroços.
Evocam-se vazios invulneráveis.
O tempo é feito de destroços.
De Arqueolhar (LGE, Brasília, 2005)
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::Meu amor, caiu uma neblina sobre meu peito
que não enxergo um palmo além da boca
e me escapa uma rima perdida e louca
só para dizer, mesmo que nada diga,
de todas as paixões vadias
que me abordam cobrando documentos
como o último soldado a tremer de frio
Veja os postes pensativos,
diante da aura triste dos faróis.
Sou um planeta cheio de luas,
amores são halos que me cegam
e à deriva eu perco a voz.
Por isso, amiga, essa falta de ar
e de modos
que me obriga
a depois de beijá-la, afagar-lhe os seios
me trancar no banheiro e sonhar com outras
que meu coração abriga.
Afogado em fumaça e névoa,
costuro retalhos de emoções
e encontro o dia claro.
Já bebi toda a noite das garrafas!
E sem saber a quem chamar de querida
tomo meus amores pelas mãos.
E faço amor com a própria vida.
De O delírio dos búzios (Varanda, Brasília, 1999)
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