[crônica] O RELÓGIO DE MEU AVÔ



Meu avô morreu em janeiro de 1975, aos 85 anos. Eu, aos 18, não entendia bem a morte e não imaginava que, quanto mais se vive, mais ela se torna real e presente. Naquele dia eu estava em Belo Horizonte, fazendo as últimas provas do curso colegial. Morava numa república no 22º andar do edifício JK. No final da tarde, bateram à porta. Era um amigo, Helder Piantino, conterrâneo que morava alguns andares abaixo. Nosso apartamento não tinha telefone. Sempre que ele batia à minha porta, eu sentia certo desconforto. Naquele dia foi pior, porque havia deixado meu avô doente. Minha mãe pedia que eu ligasse. 

No domingo anterior, pouco antes que eu saísse em direção à rodoviária de Passos, minha mãe me puxou para um canto, olhou-me nos olhos e disse: “Vá se despedir de seu avô, pode ser que você não o veja mais.” Lembrei-me dessas palavras quando tomei o elevador ao lado do Helder, para lhe telefonar. 

Era uma terça-feira. Havia um ônibus para Passos à meia-noite. Dormi pouco durante a viagem. Pensava nas histórias sobre tempos antigos de Passos, que meu avô gostava de contar. À noite, sentava-se à mesa da sala do sobrado; minha avó, minha mãe e minhas tias ao redor e eu no colo de alguma delas, para ouvi-lo falar. 

O velho Chico Gomes, como era conhecido, teve inúmeras profissões. Quando bem jovem foi ferrador de cavalos. Nessa época, um fabricante de cigarros oferecia prêmios em troca dos selos que lacravam os maços. Meu avô, que foi fumante a vida inteira, conseguiu juntar mil selos e ganhou um relógio de parede. Quando contava isso, apontava orgulhosamente para o relógio às suas costas, imponente na parede da sala. Badalava de meia em meia hora, e duas vezes por semana meu avô subia numa cadeira para lhe dar corda. 

Desde menino, eu gostava de ouvir os badalos do relógio, que permaneceu naquela mesma parede por mais tempo que meu próprio avô dentro do sobrado. Pelo processo natural da vida, um homem nasce, amadurece, envelhece e morre, e Chico Gomes morreu de velho. De certa forma, a casa que ele construiu passou pelo mesmo processo. Consta que ficou pronta antes de 1910. Em dezembro de 2007, foi fechada por falta de moradores. 

Cheguei a Passos ao amanhecer. O ônibus da Transilva estacionou na velha rodoviária da Praça do Rosário. Atravessei a rua e desci a Antônio Carlos. Seria mais rápido pela Deputado Lourenço de Andrade, mas fiz meu caminho habitual, passando pela Praça da Matriz, rua Santo Antônio e virando à direita na Travessa Inconfidentes. Na esquina, parei por alguns momentos. Depois, virei à esquerda e cheguei ao velho sobrado. Na época, os velórios aconteciam nas próprias residências, e havia muita gente na calçada. 

Subi, sentindo cada degrau, e da sala de visitas tive a última visão de meu avô. A porta de vaivém que dava acesso ao interior da casa estava aberta. Haviam retirado a mesa da sala de jantar e a cômoda que ficava junto à parede do fundo. À esquerda de meu avô, o relógio parecia observar a cena: o velho Chico Gomes cercado de parentes, vizinhos, amigos da família, indiferente a todos. 

O relógio marcava quatro horas e alguns minutos. O horário exato da morte de meu avô. Quando ele exalou o último suspiro, o relógio parou junto. Em respeito à memória do velho, ou à estreita relação entre eles, ninguém ousou mexer no relógio por algum tempo. Mas depois o puseram para funcionar de novo, como se assim pudessem trazer meu avô de volta. 

[poema] PELO DIA NACIONAL DA POESIA

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Comemorando o Dia Nacional da Poesia, 14 de março. Uma data para nos lembrar que a poesia está presente em todas as horas e todos os dias. 


YOANI SANCHEZ E OS MILITARES


Yoani, durante a viagem de seus sonhos

Eu não nasci ontem. Eu senti o que foi a ditadura militar. Quando estudante, fui acuado muitas vezes por policiais a cavalo por participar de manifestações. Nunca fui preso, mas amigos foram. Alguns foram torturados. Ainda adolescente, fui pressionado por oficiais do Exército por causa de uma revista literária que co-editava. Minha formatura na universidade se realizou sob estado de tensão, por causa da grande quantidade de carros da polícia estacionados diante do auditório. Sonhei muito com liberdade, democracia e o fim do maniqueísmo da época da ditadura: ou contra ou a favor. 

Tenho pensado muito nisso ao ler as notícias sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez. Nunca fui a Cuba. Era admirador de Che Guevara. Também cheguei a ser fã da revolução de Fidel Castro. Acredito nos avanços sociais que a ilha alcançou. Mas não posso entender por que é tão difícil para os cubanos saírem da ilha, nem que seja a convite de entidades internacionais. Não posso admitir que aqueles que saem às escondidas sejam capturados e fuzilados, como fugitivos de prisões. Por isso, Cuba não me seduz. 

Aquele país com liberdade, democracia e um universo político amplo, aberto a manifestações e ideologias diversas, com que eu sonhava na época da ditadura, está cada vez mais distante da realidade. Tive um choque ao ler no jornal que Yoani, em visita ao Brasil, foi impedida de lançar um livro na Livraria Cultura de São Paulo. O evento foi cancelado por falta de segurança, devido às hostilidades praticadas por manifestantes barulhentos. 

Tento imaginar qual era a intenção desse grupo. Impedir uma autora de autografar um livro? Ou queimar os livros dela, da mesma forma que os militares faziam durante a ditadura? A mesma laia de gente havia impedido a exibição de um filme na Bahia, assim como a censura fez com inúmeros filmes, livros e jornais. 

Quem é esse pessoal agressivo, violento, que tem perseguido a cubana? Qual o problema de criticar Fidel Castro? Qual o problema de Yoani falar a quem gostaria de ouvi-la? Não me interessam neste momento os argumentos dela ou de seus adversários. Mas eu gostaria muito de saber quem são esses moleques que a têm impedido de se manifestar, da mesma forma que os generais, ou qualquer soldadinho pé rapado, faziam com os adversários na época da ditadura militar. 

Se tudo isso vai acabar em piada de salão, como sempre acontece no Brasil, é bom lembrar que a ditadura não foi uma piada. É bom lembrar sempre de Rubens Paiva, um ex-deputado assassinado cujo corpo jamais foi encontrado; é bom lembrar do poeta Nicolas Behr, que era pouco mais que um adolescente ao ser processado pela Lei de Segurança Nacional por vender livros de poesia em bares de Brasília; é bom lembrar de Carlos Alexandre Azevedo, que se suicidou aos 40 anos sem conseguir superar o trauma da tortura que sofreu quando não tinha dois anos. 

Se nos anos 60-70-80 a repressão vinha do próprio governo militar, hoje temos nas ruas um grupo de jovens intolerantes, arrogantes e donos da verdade que não admitem liberdade para quem vai falar o que não lhes agrada. Provavelmente alguns desses jovens ficam indignados quando um homossexual é espancado na rua, mas não conseguem compreender um princípio básico da democracia, que é o de ouvir e ser ouvido, que a violência, na verdade, não cala ninguém. Da mesma forma, algumas pessoas que nas redes sociais combatem a visita da cubana, com frases agressivas ou piadas, costumam postar protestos contra homofóbicos e racistas. 

A imprensa divulgou fotos de Yoani em companhia de representantes do que há de pior na política brasileira, quando ela esteve no Congresso Nacional. Gente como o deputado Jair Bolsonaro, fascista que defendeu a tortura praticada pelos governos militares. Mas onde estava a presidente Dilma Rousseff, testemunha das atrocidades dos porões da ditadura? Onde estava Chico Buarque, que teve tantas canções censuradas? 

Essa gente não está entendendo nada. Não está entendendo que muita gente lutou, sofreu e morreu para construir um país melhor e mais justo, o que só é possível em ambiente democrático. Eu gostaria muito de viver num país onde a liberdade de manifestação fosse realidade, mas por enquanto consigo apenas me envergonhar.  


A foto que ilustra este texto é de Edmar Melo (agência Efe)

[crônica] AS IDADES DO HOMEM



Há algum tempo uma revista anunciou com certo estardalhaço que o brasileiro que chegará aos 120 anos de idade já havia nascido. Com a morte recente do arquiteto Oscar Niemeyer, o tema da longevidade voltou à discussão. Ele nos deixou alguns dias antes de completar 105 anos, idade a que também chegou outra brasileira famosa, a D. Canô, mãe de Caetano Veloso e Maria Bethania. Serena e sábia, ela percebeu que seu tempo se esgotara, e pediu que os filhos a retirassem do hospital onde se tratava de uma isquemia e a levassem para casa. Morreu no dia de Natal. Até um ano antes, estava cheia de saúde, encarando noitadas para ver shows dos filhos.

Ainda que o misterioso conterrâneo que chegará aos 120 esteja entre nós, a garantia da idade avançadíssima jamais nos livrará do processo do envelhecimento, que segundo a ciência tem início antes dos 40 anos e, na minha visão de leigo, no momento do nascimento. Porque viver, afinal, é envelhecer. 

O ser humano, e talvez todas as demais criaturas, envelhece aos pedaços. E um dos pedaços mais complicados do homem – e aqui me refiro ao gênero masculino – é um pequeno órgão chamado próstata. Dizem que, se o homem fosse um automóvel, haveria um “recall” em massa para resolver os problemas dessa peça, muito sujeita a defeitos devido ao seu posicionamento mal projetado. 

Por isso, quando uma médica, após uma ecografia, me disse que eu tinha “próstata de menino”, me espantei. Olhei-a com meus olhos de sexagenário e agradeci a comparação, que sintetizava o estado geral e dispensava explicações. 

Os olhos deram seu primeiro sinal de envelhecimento aos 17 anos. Pela janela do apartamento onde morava, no bairro Carlos Prates, de Belo Horizonte, percebi que o relógio da torre da igreja, a três quarteirões de distância, parecia embaçado e pouco preciso quando eu fechava o olho direito. Hoje, aos 56, ambos carregam significativa miopia, um pouco de diplopia, astigmatismo e agora deram para reclamar de cansaço. Assim, carrego comigo dois óculos, que uso de acordo com a necessidade. E me lembro que minhas tias, antes de pegar na máquina de costura, me convocavam, quando menino, para enfiar a linha no buraco da agulha... 

A audição, para minha surpresa, foi classificada como “excelente” após um teste. Cismado de que estava ficando surdo, fui tirar a prova. Para o médico, que me deu nota dez, não havia o que contestar. Para mim, ficou a dúvida: embora às vezes eu ouça excessivamente bem, há outras em que quero ouvir e não consigo. 

Talvez o problema esteja no cérebro, que, mesmo protegido na caixa craniana, tem sofrido com o calor. Meus cabelos diminuíram bastante ao longo do tempo, e os que permaneceram estão mais finos. Além disso, boa parte deles vai perdendo a cor. Quando senti saudades do garoto cabeludo que fui e tentei deixar crescerem os cabelos, eles simplesmente se recusaram. 

Manter o espírito jovem significa manter a inquietação, a curiosidade e o inconformismo naturais da juventude, mas o corpo, ou seja, a matéria, submete-se às mudanças ditadas pelo tempo que passa. Nossas células têm prazo de validade, e a passagem do tempo é visível no rosto, no corpo e nos gestos. Ou às vezes é invisível. Ainda que eu goste muito de caminhar, no mato ou na cidade, suba e desça escadas com desenvoltura, há alguns dias ouvi de um médico: “Sua válvula mitral está com prazo vencido.” 

Como se vê, não temos uma idade, mas várias. E a grande vantagem da maturidade que vem com o passar do tempo é o que aprendemos. Aprendemos, por exemplo, a encarar as adversidades com serenidade. E a tornar realidade aquele que é meu slogan preferido: “Um dia vamos rir disso tudo.” 

É o que pretendo, lá na frente. Não rir da vida, mas rir com ela. Com todos os sentidos ainda vivos, mesmo que de óculos, careca, de barbas brancas e coração reformado. 


[Publicada em CNP Notícias, edição de dezembro de 2012]

AOS AMIGOS, UM BOM 2013.

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Agradeço a todos os amigos e demais leitores pelas visitas a este espaço. Espero que continuemos trocando ideias em 2013.

[estante afetiva] A ARTE DE TONINO GUERRA


Eu tinha o hábito de visitar a Livraria Portugal, de Brasília, para ver as novidades de literatura portuguesa. Mas, naquela manhã de sábado, o que me encantou foi uma pequena obra prima de literatura italiana. Retirei da prateleira um volume que me atraiu pelo título: O livro das igrejas abandonadas. Eu não conhecia o autor – Tonino Guerra – ou, melhor dizendo, não sabia que ele era também o roteirista de filmes que me haviam marcado profundamente, como Amarcord, de Federico Fellini, BlowUp e Zabriskie Point, de Antonioni, Paisagem na neblina, de Theo Angelopoulos, Nostalgia, de Tarkovski... A lista é imensa. Naquele momento, folheando o pequeno livro, eu descobria a bela prosa poética de Guerra, traduzida do italiano por José Colaço Barreiros e publicada pela Assírio & Alvim, de Lisboa.

Li e reli aquelas histórias várias vezes. Tonino Guerra criou um universo poético e cinematográfico, em que as narrativas se parecem com descrições de filmes de curta metragem, que ele conta do início ao fim não para estragar a surpresa de um futuro espectador, mas para encantá-lo. Todas as histórias de O livro das igrejas abandonadas têm como cenário algum pequeno templo, nem que seja uma caverna onde vive um frade escondido do mundo.

Curioso pela obra de Tonino Guerra, pedi a uma livraria do Porto, em Portugal, dois outros volumes, igualmente surpreendentes: O mel, em que o escritor conta, em versos, a história de sua aldeia, Santarcangelo de Romagna, onde seu irmão mais velho, Dino, habitou até a morte, e Histórias para uma noite de calmaria, uma coleção de contos e poemas em que ele aborda o mesmo universo, tão singelo quanto mágico.

“Há sempre uma história na sua poesia, há sempre poesia em suas histórias”, escreveu sobre ele o também italiano Italo Calvino. O livro O mel tem outra curiosidade: foi todo escrito em romagnolo, dialeto da região onde nasceu Tonino, acompanhado de uma versão em italiano. A tradução portuguesa foi feita diretamente do romagnolo, a pedido do autor, por Mário Rui de Oliveira.

Dois dos poemas de O mel foram recitados em filmes ¬– um em Casanova, de Fellini, e outro em Nostalgia, de Tarkovski. Sua capacidade de injetar altas doses de poesia a elementos da memória fez com que esses e outros filmes que ajudou a criar, especialmente naquela fase áurea do cinema italiano, se tornassem clássicos.

Tonino Guerra nasceu em 16 de março de 1920 e faleceu cinco dias depois de completar 92 anos. Ele havia retornado há poucos anos para Santarcangelo de Romagna, província de Rimini, onde nasceu.

[história afetiva] PROTÓTIPO Nº 7

A sétima edição de Protótipo, publicada em novembro de 1975, que pretendia ser a primeira de uma segunda fase, marcou a despedida da revista literária, lançada em novembro de 1972 na cidade de Passos (MG). Ela veio com aspecto gráfico totalmente diferente das anteriores, pois foi a única impressa em offset, tecnologia surgida havia poucos anos, que representava grande avanço em relação ao mimeógrafo a tinta. A capa da revista simbolizava essa mudança: trazia um desenho de Wagner de Castro, artista residente em Passos e nome importante das artes plásticas em Minas Gerais.

Nessa nova fase, até a sede da revista mudou, passando a ser Belo Horizonte. O contista João Antônio, que algum tempo depois alcançaria projeção nacional, foi um dos destaques da edição. Protótipo também publicou Wander Piroli, Jeferson de Andrade, Henry Correa de Araújo e Ronald Claver, autores que ganhariam importância na literatura brasileira, além dos habituais editores da revista. Em suas páginas apareceram ainda dois escritores estrangeiros: o guatemalteco Otto René Castillo e o peruano Jorge Spinoza Sanchez.

Apesar do longo intervalo entre esta edição e a anterior, publicada dois anos antes, o núcleo da equipe permaneceu ativo, seus integrantes amadureceram. Saídos do ninho no interior de Minas, todos já viviam em centros maiores, frequentavam universidades e começavam a tocar a vida. Para alguns dos fundadores da revista, a literatura já representava claramente um projeto para o futuro. Outros já haviam feito outras opções e, embora tenham publicado seus exercícios literários nas primeiras edições, já nem constavam mais do expediente. Infelizmente, a fase da maturidade de Protótipo durou apenas um número.

A efervescência cultural e literária que marcou a década de 1970 no Brasil, e gerou grande número de revistas, não indicava para os escritores da época perspectivas muito otimistas. Na entrevista concedida ao jornalista José Louzeiro, publicada nessa edição, João Antonio reclamava da falta de editores, da falta de crítica literária e da falta de uma política de governo para a literatura. Na época, ele defendia que a televisão, “maior veículo de divulgação do mundo atual”, acolhesse o escritor como profissional de criação.

Na contracapa da revista eram anunciadas algumas das atrações do oitavo número, nunca publicado: Roberto Drummond, Elias José, Adão Ventura, Sérgio Santanna e o chileno Alfonso Alcalde. Por ironia, era a primeira vez que uma edição da revista anunciava a seguinte.

Foi a única edição de Protótipo que não veiculou anúncios do comércio de Passos, onde a revista nasceu, mas o editorial destacava a colaboração financeira da Prefeitura Municipal daquela cidade. E, embora a tecnologia de impressão fosse bem mais moderna que o rudimentar mimeógrafo, o excesso de detalhes gráficos “sujou” a revista, prejudicando a leitura. Fruto da inexperiência dos editores, que exageraram ao brincar com as possibilidades da editoração gráfica.

A sétima edição abria uma nova perspectiva para a revista, e os erros certamente seriam corrigidos nas edições seguintes. Protótipo ainda prometia muito para o futuro. Deixou saudades.


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[história afetiva] PROTÓTIPO Nº 6

“Grupo formado em Passos com o objetivo de mostrar ao resto do país a sua literatura e divulgar outros novos autores que surgem sem chances de publicar seus trabalhos” – assim se definia o Grupoema, nome com que os fundadores da revista literária Protótipo se apresentavam. Criada no interior de Minas Gerais, a revista já tinha a pretensão de ensaiar voos mais altos. A sexta edição da Protótipo foi lançada em novembro de 1973, apenas 11 meses depois de seu número de estreia. A partir daí, veio um longo intervalo de dois anos.

O comércio da cidade de Passos continuava prestando todo o apoio à revista, como acontecia desde o primeiro número. No entanto, a dispersão do grupo inviabilizou a continuidade da publicação. No início de 1974, a maior parte dos seus integrantes, jovens entre 17 e 21 anos, se mudaram para outros centros, com o objetivo de prosseguir seus estudos. O destino da maioria era Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília.

A sexta edição, com capa de Antônio Barreto, representou a despedida da primeira fase, mas, ao menos para alguns dos integrantes do grupo, não foi o fim de um sonho. A literatura permaneceu forte como atividade ou projeto de vida. Era uma semente incubada, que renasceria no futuro.

Entre os autores publicados nesta edição, além daqueles que já frequentavam suas páginas desde o primeiro número, é interessante citar a presença de Afonso Henriques Neto, nome importante do grupo carioca do movimento da poesia marginal, filho e neto de importantes poetas brasileiros. Mas participaram também Romes Aziz Sabbag (Guaxupé-MG), Gilberto Andrade Abreu (Passos), Irene Tavares (São Paulo), Julio Cesar Nery Ferreira (Belo Horizonte), Duneya West e Sandra Siqueira (Rio de Janeiro),  Ricardo Costa Vaz (Formiga-MG) e Paulo Nassar de Oliveira (Londrina-PR).


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[estante afetiva] A VIAGEM DAS PALAVRAS

 Durante uma viagem de avião, entre Brasília e São Paulo, eu soube que meu amigo, xará e conterrâneo Alexandre Brandão transou com a Gisele Bündchen.

O Xará é escritor, o que talvez o credencie a mentir, de forma não condenável. Escritores fingem completamente, como disse Fernando Pessoa, mas é outra a mentira que contam: afinal, uma das fontes da força da literatura é que cada mentira, cada fantasia, remete à realidade.

O ofício do escritor não é nada simples – não é feito de colocar palavras umas atrás de outras, mas de saber usar a palavra certa no lugar certo, o que é muito diferente. As palavras são como pedras de infinitas faces, e cada face tem um sentido e uma sutileza, o que torna a construção do texto uma função de ourives. É por isso que acreditei na história contada pelo Alexandre Brandão, embora a creia improvável, talvez não a transa em si, mas os diversos contextos.

Quem ler o livro No Osso – Crônicas Selecionadas, publicado pela Cais Pharoux, vai deparar com histórias em que Brandão revela suas várias faces de ourives da palavra. Há memória, fantasia, ficção, história e textos em que o autor simplesmente brinca com as palavras, como uma criança brinca com pedras, pedaços de ossos ou frutos verdes caídos das árvores. Escrever é, no mínimo, muito divertido, assim como ler o resultado dessas brincadeiras.

Mas o trabalho de Alexandre Brandão é muito sério – e aí talvez seja melhor tratar sua literatura não como uma brincadeira, mas como um jogo. Logo na primeira crônica, O mundinho das palavras, ele mostra de que essas pecinhas mágicas são capazes quando manipuladas por um bom artesão. Só faltou perguntar, no final, se delirium verbis é doença de escritor.

O livro traz 45 crônicas, escritas a partir de 2000. Parte delas foi publicada em jornais e blogs, especialmente o blog No Osso, que Brandão mantém há alguns anos e que emprestou o nome ao volume. Algumas referem-se à cidade de Passos, cenário de sua infância, mas alcançarão qualquer leitor sensível. Em outras, o autor exercita seus dons e imaginação de contista, em textos que pegam o leitor pelos sentidos e o conduzem sem turbulências até o final do livro, quando se percebe que a viagem foi rápida e prazerosa.

CAIXINHA DE SURPRESAS


O pequeno pacote chegou na quarta-feira, 12 de setembro, vindo de Jaboatão dos Guararapes (PE). Imaginei tratar-se de algum livro. A literatura me proporciona essas surpresas ocasionais, algumas bastante agradáveis. Edson Guedes de Morais, o remetente, era um desconhecido para mim.

Aberto o pacote, encontro uma caixinha de papelão. Na tampa, uma imagem pela qual tenho enorme carinho: uma fotografia de minha mãe, aos nove anos de idade. Essa foto faz parte dos arquivos familiares e serviu de inspiração para o poema Carta a Mariazinha, publicado em meu livro Arqueolhar.

As surpresas estavam apenas começando. Dentro da caixa, mais de uma centena de cartões, com uma série de poemas retirados de meus cinco livros, e um deles do mais recente, Exília, ainda inédito.

Um dos cartões trazia a dedicatória manuscrita: “Ao poeta Alexandre Marino, com os cumprimentos de Edson”.

Edson Guedes de Morais comanda a Editora Guararapes EGM, estabelecida em Jaboatão dos Guararapes. Nascido em Campina Grande (PB) em 1930, tem formação profissional em desenho, pintura, artes gráficas, jornalismo, entre outras. Soube depois que o belo trabalho que ele realizou com meus poemas faz parte de um projeto pessoal a que tem se dedicado ao longo dos anos, divulgando, com abnegação e generosidade, a obra de escritores que admira.

A escolha dos mais de vinte poemas que compõem a caixa exigiu de Edson Guedes uma cuidadosa pesquisa. Traçam um abrangente panorama de meu trabalho literário, que venho realizando desde a adolescência. As imagens com que ilustrou os poemas também demonstram o apreço e sensibilidade com que se dedicou à tarefa.

A literatura vale também por essas pequenas grandes surpresas.

[história afetiva] PROTÓTIPO Nº 5

 “Fique por dentro da literatura jovem deste país: leia e passe pra frente”, clamava o texto publicado na primeira página da quinta edição de Protótipo, lançada em agosto de 1973, apenas dois meses após a edição anterior. A revista estava a todo vapor. Elogiada pela imprensa especializada, recebia cartas, livros e colaborações de várias regiões do país e a turma de escritores do grupo conquistava prêmios literários.

O texto da primeira página mostrava um pouco do currículo desses autores, listando alguns dos prêmios conquistados em concursos e festivais de vários estados brasileiros. Definitivamente, a turma da Protótipo rompia as fronteiras de Passos, cidade com pouco mais de 50 mil habitantes no sudoeste de Minas Gerais, onde não se fazia uma ideia exata dos estragos causados pela ditadura militar país adentro.

Novos autores apareciam pela primeira vez nas páginas da quinta edição da Protótipo, que trazia na capa um desenho deste escriba. Mas o expediente registrava uma sentida ausência: Carlos Anselmo Parada, um dos fundadores, se afastou da revista, por discordar de alguns métodos adotados pelo grupo. Posteriormente, ele criou outra, Ardeia, de orientação mais jornalística e cultural, voltada para questões locais.

Neste quinto número, publicaram, pela primeira vez na Protótipo, os autores Geraldo Rezende e José Francisco da Silveira (Guaxupé-MG), Heber Fonseca Santos (Recife), Susete de Lourdes (Passos), Ronaldo Botrel (Belo Horizonte) e Leônidas Azevedo Filho (Salvador). Entre os escritores que não pertenciam ao grupo, mas se tornavam frequentes nas páginas da revista, estavam os paranaenses Domingos Pelegrini e Rui Werneck de Capistrano.


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MONTEIRO LOBATO, RACISTA?


No futuro, quando o Brasil tiver evoluído, educado melhor sua população e se aproximado da civilização, a cena que você vê na foto acima se tornará piada de salão.

Contam os anais do Vaticano que, num passado distante, a alta cúpula da Igreja católica se reuniu durante vários dias para discutir qual era o sexo dos anjos. Ao final da longa maratona de debates, sem chegar a qualquer conclusão, decidiram que os anjos não têm sexo.

A expressão “discutir o sexo dos anjos” se tornou, desde então, sinônimo de discussão infrutífera, sem importância.

No Brasil do futuro, caso o país consiga evoluir, a expressão “discutir o racismo em Lobato” será sinônimo de debater questões inócuas - ainda que a reunião que você vê na foto possa trazer graves consequências. 

Um grupo de advogados preocupados com o racismo decidiu levar ao Supremo Tribunal Federal, a mais alta corte do país, a descoberta de um mestrando em educação na Universidade de Brasília, o técnico em Gestão Educacional Antônio Gomes da Costa Neto. Segundo ele, o livro Caçadas de Pedrinho, um clássico da literatura infantil brasileira, é racista. Por causa dessa ideia, há quem defenda a proibição do livro.

O atraso do Brasil em educação é tão grave que educadores como Costa Neto e alguns integrantes do Conselho Nacional de Educação simplesmente não sabem, não têm noção, do que é literatura.

Literatura não é educação moral e cívica. Não é cartilha escolar. Não é manual de instruções para injetar informação na cabeça de crianças.

Literatura é arte! Será que esse pessoal sabe o que é isso, arte?

A coisa chegou a tal ponto que pessoas supostamente intelectualizadas decidiram levar ao banco dos réus, repito, na mais alta corte do país, um autor clássico da literatura brasileira, Monteiro Lobato.

Muitas gerações descobriram o prazer da leitura com livros de Lobato. Será que todos esses leitores se tornaram racistas?

Racismo é consequência da ignorância, professor. E o melhor remédio contra a ignorância é a leitura. De autores clássicos, mais ainda.

Será que os professores que ensinam nossas crianças estão levando a elas a poesia de Carlos Drummond de Andrade, de Manoel de Barros, de Manuel Bandeira, de Ferreira Gullar?

Em audiência no Supremo, representantes do Ministério da Educação e do Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara) concordaram em discutir novamente em 25 de setembro as questões levantadas pelo “racismo” em Lobato. Entre as quais, as relações étnico-raciais em livros adotados pelo sistema de ensino.

Mais importante que o resultado dessa discussão é perceber que, enquanto a literatura não for vista com seriedade nas escolas, a ignorância tende a se alastrar.

Foto: Portal do STF

[história afetiva] PROTÓTIPO Nº 4

O quarto número da revista literária Protótipo foi lançado em junho de 1973, e o sucesso das edições anteriores, que atraíram notas, artigos e reportagens em grande número de jornais e revistas, deu uma certa segurança ao grupo para compreender que nossos textos já rompiam as fronteiras da cidade de Passos. No editorial, Antonio Barreto fazia referências ao “país em que as revistas literárias não passam do número três...” e onde uma cruel ditadura militar “ceifava as manifestações culturais ao alvorecer”.

Esta edição teve na capa um desenho de Marco Túlio Costa, um dos escritores do grupo. No expediente, um dado curioso: havia o diretor geral, o diretor executivo, o tesoureiro, o departamento de vendas, o departamento de propaganda, o departamento de intercâmbio; mas na verdade, todos os integrantes eram escritores e publicavam contos e poemas nas páginas da revista. Até hoje não entendi o propósito dessa divisão do grupo em cargos burocráticos, já que todos faziam de tudo. Nenhum de nós saberá explicar isso.

Nessa época, Antonio Barreto já se mudara de Passos para Belo Horizonte, onde se empregou numa pequena gráfica montada pelo também escritor Jefferson Ribeiro de Andrade, a Copibel. Jefferson editava uma revista semelhante à Protótipo, Bel´Contos, e ambas se tornaram revistas irmãs. Barreto datilografava todos os textos em estêncil eletrônico, e outros integrantes do grupo da Protótipo cuidavam das ilustrações, feitas da mesma maneira trabalhosa e rudimentar das edições anteriores, com estilete sobre o estêncil.

Além dos autores do grupo, esta edição de Protótipo também abriu suas páginas a outros autores, como Carlos Verçosa e J. Cristiniano, de Londrina (PR), Maria Aparecida Negrinho, de Guaxupé (MG) , e Carlos Alexander Mínimo, de Passos. 


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POEMA DE MIL FACES

Um interessante projeto de Paulo de Toledo: reunir em livro (virtual) outros poetas que, como ele, circulam pelo Facebook e outros caminhos da web divulgando seus versos. Ele solicitou os poemas, os autores atenderam e o resultado, este Poema de Mil Faces, foi excelente. Assim, quem ainda não percebeu vai notar agora que a internet é um importante ninho da poesia brasileira atual. Boa leitura!

Acesse o livro completo aqui

[história afetiva] PROTÓTIPO Nº 3

Nossa turma começou o ano de 1973 embalada pelo sucesso da revista literária Protótipo, e em maio lançamos o terceiro número, com capa de Carlos Parada. Esta edição mantinha o formato de 21x15 cm, inaugurado na anterior, lançada em março, e os textos foram datilografados sobre o estêncil em máquina de escrever elétrica, melhorando a qualidade gráfica. Mas o processo de impressão em mimeógrafo a tinta era o mesmo das primeiras edições. O comércio de Passos continuava apoiando, e o interesse pela revista, entre professores e estudantes, continuava crescendo.

Se o sucesso da Protótipo nos trazia orgulho, também trazia aborrecimentos. Antonio Barreto, que assinava como diretor-geral da revista e fazia o serviço militar, foi convocado pelos três sargentos do Exército que administravam o Tiro de Guerra local a dar explicações sobre a revista, e teve que lhes apresentar uma série de textos que preparávamos para esta edição. Os militares, uma espécie de versão linha dura dos Três Patetas, pareciam deslumbrados com o clima de terror instalado no Brasil pela ditadura, e queriam fazer em Passos seu próprio departamento de censura. Felizmente o Barreto conseguiu driblá-los com a mesma destreza com que fechava o gol do time do Colégio Estadual, e não houve mais incidentes.

Cinco meses após o lançamento do primeiro número, já havíamos tomado conhecimento de grande número de publicações que fizeram referência à 
Protótipo, incluindo revistas e jornais de circulação nacional. Esta terceira edição reproduzia um desses textos, aquele que maior orgulho nos trouxe: assinado pelo escritor e desenhista Ziraldo, foi publicado na coluna Dicas do jornal carioca O Pasquim, numa edição histórica, o nº 200.

O Pasquim era o campeão de vendas da imprensa alternativa, que se desenvolveu no Brasil numa época de fortes ataques da ditadura militar à liberdade de expressão. Tinha no expediente grandes nomes do jornalismo brasileiro – Ziraldo, Ivan Lessa, Jaguar, Paulo Francis, Millôr Fernandes, entre outros. Crítico e irreverente, marcou época por ter inovado a linguagem jornalística, e muitas de suas edições causaram furor. Na coluna Dicas, publicada nas páginas finais, os jornalistas escreviam textos curtos sobre os mais variados assuntos.

Sob o título Nem tudo está perdido, a nota do Pasquim rasgava seda sem dó para a Protótipo, e o jornal, que comprávamos todas as semanas na banca de revistas que funcionava do lado oposto da Praça da Matriz, circulou de mão em mão na sede da União Passense dos Estudantes Secundários (Upes), também sede da revista, antes que se esgotasse no ponto de vendas. “A televisão não conseguiu destruir completamente a província”, dizia a nota. “Recebo de Passos, no interior de Minas, uma revista impressa lá, feita lá, bolada lá. Com contos, poemas experimentais e ensaios. Uma revista literária, sim senhores. Dentro dos moldes mais perfeitos.”

Assim como a edição anterior, o terceiro número da Protótipo se abriu a autores que enviaram colaborações. Assim, publicamos Rui Werneck de Capistrano, de Curitiba; J. Cristiniano, premiado em concurso literário da Universidade de Campinas, e Domingos Pelegrini, que na época ainda acrescentava um “Jr.” ao nome. Do grupo que fundou a revista, esta edição trouxe contos e poemas de Iran Freits´mach, Marco Túlio Costa, Antonio Barreto, Roger Leinad, Carlos Anselmo Parada, Paulo Regissilva e Alexandre Marino. 


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[estante afetiva] MEU AMIGO SILAS


Silas circula pela cidade. Atravessa um carnaval, bebe no Maletta, sobe a Amazonas, caminha pela Santos Dumont, diverte-se na feira de artesanato da Praça da Liberdade. Carrega na mochila as histórias que me levam de volta à Belo Horizonte dos anos 70, anos 80, daquelas noites em que conheci o Sérgio Fantini vendendo livros mimeografados nos bares da Augusto de Lima. Falar de Silas é falar do Sérgio e vice-versa.

Silas é alter-ego, ele mesmo ou apenas um personagem, ou tudo junto. Sérgio Fantini publicou uma pá de livros, desde os simplórios (no bom sentido) livretinhos mimeografados, com títulos inusitados (Carapuá, Ô menina, Bakunin, Palpites Ltda) até aqueles com jeitão mais sério, como este Silas, lançado em 2011 pelo selo Jovens Escribas, de Natal. Jeitão mais sério é modo de dizer; primeiro porque a literatura do Sérgio sempre foi uma coisa muito séria, segundo porque sempre teve esse dom debochado ao tratar seus personagens, como se dissesse a eles que, se a vida não é uma festa, também não pode ser levada a sério demais.


Em Silas, Sérgio Fantini assumiu de vez o perfil e o nome de um personagem que circulou com outras identidades em outros livros, mas sempre foi o mesmo. E atualizou suas histórias. Entre um e outro, não esqueceu dos amigos, que até mesmo compareceram a um festivo enterro imaginário. Do garoto desaparecido no primeiro conto, que fez uma firula e enganou o editor de uma antologia nacional, até os 30 do segundo tempo, aí estão os diversos olhares de Silas, assim como a(s) realidade(s) segundo ele – senão a mesma, a evolução da mesma.

Sérgio Fantini é velho companheiro de aventuras literárias, de velhos e novos tempos. E de tudo aquilo que diz respeito à literatura, à arte, à vida. Por isso, vira e mexe pedimos ao velho Márcio pra baixar mais uma. Não faltam velhas ou novas histórias. Algumas quase inacreditáveis, como aquele desfile das instituições de ensino no dia do aniversário da cidade de Passos (MG), onde Sérgio, como outros escritores, foi homenageado. Foi muito legal vê-lo debaixo de chuva, em plena praça, sob os aplausos da população. Grande Sérgio, grande Silas!

[história afetiva] PROTÓTIPO Nº 2

Lançamos em março de 1973 a segunda edição da revista literária Protótipo, que a essa altura da vida já reunia uma coleção de histórias, muito além daquelas narradas em contos e poemas com que preenchemos suas 70 páginas. A primeira novidade apresentada neste número era o formato, 21 x 15 cm, metade da primeira edição. Entre uma e outra, alguns de nós conquistamos prêmios literários, viajamos, conhecemos gente interessante, a literatura era um mundo novo que abria suas portas. 
 

Com capa de Antonio Barreto, assim como o primeiro número, Protótipo se apresentava como “revista literária de Passos”. O expediente informava que a revista era “idealizada e editada por jovens de 16 a 20 anos, pertencentes ao Grupoema (bando de chimpanzés criadores em busca do meteoro incandescente ou passarinhos do quintal com fome de prosa e verso)”. 

A cidade de Passos, sudoeste de Minas Gerais, parecia manter a perplexidade com que recebeu a Protótipo, que circulou pela primeira vez em dezembro de 1972. Ao abrigo da União Passense dos Estudantes Secundários (Upes), nós, aprendizes de escritores, estávamos cheios de disposição para mostrar nossa literatura aos conterrâneos, e até mesmo fora dos limites da cidade e do estado. O comércio local apoiou com patrocínio e material – Ótica Santa Luzia, Casas Buri, Bazar Americano, Casa das Máquinas, Dragão dos Pneus eram alguns dos estabelecimentos que viabilizaram a edição.

Mas a grande colaboração recebida pelo grupo foi um texto do professor de Português de maior prestígio na cidade, Francisco Soares de Melo, publicado no jornal local O Sudoeste. “Trabalho de vanguarda, procurando abrir caminho novo neste ´mare magnum´ que é o movimento artístico atual”, disse o professor Chiquito, como era conhecido, referindo-se à primeira edição de Protótipo. Ao comparar a revista passense com a Verde, de Cataguases, também em Minas, que revelara, décadas antes, escritores como Rosário Fusco e Ascânio Lopes, ele dizia que “como esta marcou época e lançou escritores (...), o mesmo poderá acontecer com Protótipo, se esses moços encontrarem apoio e orientação que merecem.” O artigo foi republicado na contracapa da segunda edição de Protótipo.

A impressão da revista era precária. Os textos eram datilografados sobre estênceis de mimeógrafo a tinta, e as ilustrações exigiam habilidade e paciência, porque não eram feitos a lápis, mas a estilete, com os quais os estênceis deviam ser perfurados. O mesmo processo dava origem aos textos. Os tipos das máquinas de escrever perfuravam as matrizes, ao se datilografar sem o uso das fitas. Esta segunda edição talvez tenha apresentado uma das melhores seleções de contos e poemas da primeira fase da revista, mas foi certamente a de pior qualidade gráfica. Tudo por culpa da minha máquina Olivetti Studio 44, novinha, que eu ganhara de presente de minha mãe e que durante anos foi minha ferramenta literária. Os tipos dela eram muito bonitos, porém pequenos, o que prejudicou a perfuração dos estênceis, tornando a impressão cheia de falhas. 


Nesta edição, nosso grupo começou a se abrir para outros colaboradores, como o paranaense Rui Werneck de Capistrano e o baiano Daniel Cruz Filho. Quando nos reunimos no salão da Upes para selecionar os textos, as cópias enviadas por Rui Werneck circularam de mão em mão, não só para leitura, mas também porque queríamos ver de perto o resultado da reprodução nas máquinas xerox. Creio que na cidade só existia uma dessas máquinas, e para fazer cópias usávamos o papel carbono.

Eis aqui a relação completa dos autores publicados nesta segunda edição da Protótipo: Antonio Barreto, Marco Tulio Costa, Alexandre Marino, Paulo Regissilva, Iran Machado, Carlos Parreira, Ricardo Donabella, Carlos Parada, Rogério Daniel, Rui Werneck de Capistrano e Daniel Dias Cruz Filho. Turma danada de boa! 


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